Funcionários da Mozal descreveram à Integrity Magazine News um ambiente interno marcado por restrições à comunicação, fragilidade no diálogo laboral e crescente incerteza quanto ao futuro social e económico de milhares de famílias,

Num contexto de negociações em curso sobre indemnizações e desligamentos.

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, os trabalhadores encontram-se impedidos de comentar publicamente o processo, devido à existência de cláusulas de confidencialidade inseridas nos acordos.

“Neste momento não posso comentar sobre o sentimento dos trabalhadores. Existem cláusulas no próprio processo de indemnização que nos proíbem de falar”, afirmou uma fonte ligada à empresa, sublinhando que apenas lhe é permitido abordar aspectos gerais relacionados com o eventual encerramento da fábrica.

Este ambiente de reserva tem alimentado receios entre os trabalhadores, que estabelecem paralelos com a situação vivida pelos chamados Madjermanes, antigos trabalhadores moçambicanos na Alemanha Oriental, que regressaram ao país sem compensações consideradas justas. Entre os funcionários da Mozal, o receio é de que um cenário semelhante se repita, agora em território nacional.

Negociações sobre energia duram há vários anos

De acordo com trabalhadores que acompanham o processo, a questão do fornecimento de energia continua a ser um dos principais pontos de impasse, por ser considerada determinante para a viabilidade económica da fundição.

Uma das fontes afirmou que as negociações decorrem há mais de seis anos, embora apenas nos últimos três tenham sido percebidas de forma mais clara pela maioria dos trabalhadores.

Segundo o mesmo interlocutor, existe a percepção interna de fragilidades na defesa dos interesses nacionais, recordando que a participação moçambicana no empreendimento é de 4%.

Críticas à gestão e alegações de conflitos de interesse

Os trabalhadores ouvidos manifestaram também críticas à actual gestão da Mozal, após a transição para quadros moçambicanos ocorrida na última década. Segundo os relatos, este período coincidiu com o agravamento das condições de trabalho, instabilidade produtiva e deterioração do ambiente laboral.

Algumas fontes levantaram ainda suspeitas de eventuais conflitos de interesse, referindo que elementos da actual gestão estariam envolvidos, simultaneamente, nas negociações sobre o fornecimento de energia com o Governo. Entre os nomes mencionados encontra-se Samo Gudo, apontado pelos trabalhadores como alegado representante da empresa em negociações com o Executivo.

As fontes sublinham, contudo, que se trata de percepções internas e pedem que as entidades competentes esclareçam publicamente o processo.

“Desde a saída da gestão estrangeira, sentimos falta de transparência e de informação clara sobre o futuro da empresa e dos trabalhadores”, declarou outra fonte sob anonimato.

Clima de medo e críticas ao sindicato

Os trabalhadores descrevem um ambiente laboral considerado psicologicamente pesado, associado à incerteza quanto ao emprego e ao futuro da unidade industrial. Há relatos de problemas de saúde entre colegas, que as fontes associam ao stress prolongado.

Paralelamente, o sindicato é descrito como frágil e com reduzida capacidade de intervenção. Segundo os trabalhadores, por se tratar de uma empresa inserida numa zona franca, existem limitações ao exercício do direito à greve, o que, na sua óptica, enfraquece a acção sindical.

O Sindicato dos Trabalhadores da Mozal, filiado no SINTIME, é acusado pelas fontes de adoptar uma postura pouco interventiva e de se manter ausente nos momentos mais críticos.

“A direcção sindical aparece nos meios de comunicação a dizer que não tem conhecimento de despedimentos, quando nós vivemos esta realidade diariamente”, afirmou uma das fontes.

Pedido de maior transparência

Para os trabalhadores ouvidos, o processo em torno do eventual encerramento da Mozal carece de maior transparência.

“O que está a acontecer não está a ser explicado com clareza. Há muito mais em jogo do que aquilo que é comunicado publicamente”, concluiu uma fonte.

A Integrity Magazine News tentou ouvir a Mozal sobre as preocupações levantadas pelos trabalhadores. Em contacto com a Directora das Relações Externas da empresa, Lucrécia Uamba, a responsável limitou-se a informar que, neste momento, a empresa “não está a conceder entrevistas”.

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