O antigo director do Sistema Integrado de Segurança do Estado (SISE), António Carlos do Rosário, afirma ter sido vítima de perseguição política orquestrada pelo regime do Presidente Filipe Nyusi, acusando o poder político de instrumentalizar a justiça para o silenciar. As declarações constam de uma entrevista extensa e polémica concedida ao Canal de Moçambique, na qual Rosário defende a sua inocência no caso das dívidas ocultas, que resultou na sua condenação a 11 anos de prisão com pena suspensa.
Segundo Rosário, o processo judicial que o condenou não passou de uma “narrativa construída” para punir a sua actuação enquanto responsável pela Inteligência Económica e Segurança Nacional, sobretudo após ter iniciado investigações sobre redes de corrupção e fluxos financeiros ilícitos envolvendo interesses instalados.
“Fui preso porque toquei em questões sensíveis e ameacei interesses instalados”, afirmou.
Da liderança do SISE à queda em desgraça
Rosário recorda que assumiu a direcção do SISE em 2014, com a missão de reformar e modernizar profundamente os serviços de informação do Estado. Segundo explica, o seu trabalho passou por investigar esquemas que exploravam as fragilidades institucionais da República, o que acabou por colocá-lo em rota de colisão com sectores influentes do poder político e económico.
O antigo dirigente rejeita categoricamente as acusações de conspiração contra o Estado, sustentando que o seu afastamento e posterior condenação resultaram de conflitos internos e da sua recusa em alinhar com agendas pessoais travestidas de interesses de Estado.
Grupo de WhatsApp e alegada conspiração
Um dos elementos centrais do processo foi a existência de um grupo de WhatsApp entre quadros do SISE, apresentado pela acusação como prova de conspiração. Rosário desvaloriza essa tese, afirmando que se tratava apenas de um meio informal de comunicação interna, sem qualquer intenção subversiva.
Para o ex-director, o verdadeiro problema foi ter mexido em interesses económicos sensíveis, num contexto em que, segundo diz, o Estado moçambicano é frágil e vulnerável a pressões internas e externas.
Críticas à falta de independência institucional
Ao longo da entrevista, Rosário faz duras críticas àquilo que considera ser a ausência de independência das instituições, incluindo o sistema judicial. Na sua leitura, o seu caso demonstra como a justiça pode ser usada como instrumento político, quando não existe separação clara entre poder político e poder judicial.
Nyusi sob fogo cerrado
Questionado sobre a independência do Presidente Filipe Nyusi, Rosário evita respostas directas, mas acaba por questionar a legitimidade política e institucional do Chefe do Estado, estabelecendo comparações desfavoráveis com os antigos Presidentes Joaquim Chissano e Armando Guebuza.
Segundo Rosário, sob Chissano e Guebuza, resultados eleitorais desfavoráveis à Frelimo – como a perda de municípios para a oposição – foram reconhecidos e respeitados, algo que, na sua óptica, deixou de acontecer durante a governação de Nyusi.
Carta sobre alegada fraude eleitoral
Um dos momentos mais sensíveis da entrevista surge quando Rosário confirma a existência de uma carta escrita em 2023, na qual aborda alegadas fraudes eleitorais. O antigo director do SISE afirma que o documento foi escrito num contexto de grande tensão política e pessoal, admitindo que temia pela sua vida.
A revelação surge num período em que os processos eleitorais em Moçambique continuam a ser alvo de forte contestação interna e internacional.
Fragilidade do Estado e redes de interesses
Rosário defende que Moçambique se encontra preso numa teia de redes transnacionais de interesses, que exploram fragilidades institucionais para influenciar decisões estratégicas, sobretudo em áreas ligadas à defesa, segurança e recursos naturais.
Na sua análise, o problema central não são apenas indivíduos, mas sistemas e redes de poder que operam para além das fronteiras nacionais.
Justiça, corrupção e dívidas ocultas
Relativamente ao caso das dívidas ocultas, Rosário sustenta que foi transformado num bode expiatório, enquanto outros actores com responsabilidades políticas directas continuam fora do alcance da justiça. Critica ainda a actuação dos tribunais, insinuando que houve pressões políticas para garantir a sua condenação.
Um debate que reabre feridas políticas
As declarações de António do Rosário reabrem o debate sobre:
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a independência da justiça em Moçambique
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a responsabilização política no caso das dívidas ocultas
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e a credibilidade dos processos eleitorais sob a presidência de Filipe Nyusi
Enquanto o antigo director do SISE se apresenta como vítima de perseguição política, o regime mantém silêncio sobre as acusações, num contexto em que a confiança nas instituições continua a ser um dos maiores desafios da democracia moçambicana.
António Carlos do Rosário acusa instrumentalização política da justiça e denuncia redes de poder em MoçambiqueO antigo diretor-geral do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE), António Carlos do Rosário, voltou a público com duras críticas ao funcionamento das instituições moçambicanas, acusando a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) de falharem na responsabilização efetiva dos envolvidos em processos de grande impacto político e económico, optando, segundo ele, por servir interesses partidários.
Em entrevista ao Canal de Moçambique, Rosário afirmou que a Comissão Parlamentar de Inquérito realizou os trabalhos que lhe competiam do ponto de vista político, mas questionou a utilidade prática dos seus resultados.
“A Comissão Parlamentar de Inquérito fez o formato de trabalhos que devia e, entre políticos, até se pode dizer que fez um trabalho razoável. O problema é outro: onde está a falha da CPI? Onde está a utilização dos seus resultados para fazer justiça?”, questionou.
Segundo o antigo dirigente, as conclusões da investigação parlamentar não foram usadas para responsabilizar criminalmente os culpados, mas sim como instrumento de disputas políticas internas.
A carta à filha e o confronto com o regime
António do Rosário confirmou igualmente ter escrito, em 2023, uma carta dirigida à sua filha, num contexto que descreveu como “altamente contestado e politizado”, período em que afirma ter enfrentado diretamente o regime político.
“Eu estava a enfrentar o regime. Naquele momento, todos sabiam que eu podia perder a vida. Mesmo assim, valia a pena, porque nunca procurei protagonismo”, declarou.
De acordo com Rosário, a carta fazia referência a uma alegada traição no seio do Comando Operativo, numa possível alusão a esquemas de corrupção, abuso de poder e interesses cruzados dentro das instituições de segurança do Estado.
O Comando Operativo e o papel do SISE
Sobre a composição do Comando Operativo, Rosário explicou que a estrutura envolve os principais responsáveis da área da defesa e segurança nacional.
“No Comando Operativo, o ministro da Defesa é o chefe, o ministro do Interior e o diretor-geral do SISE são membros. Cada um coordena áreas económicas e operacionais específicas”, esclareceu.
Na sua visão, esta arquitetura deveria garantir articulação e eficácia institucional, mas acabou comprometida por interesses políticos e económicos que se sobrepuseram à segurança nacional.
Redes de influência e fragilidade do Estado
O antigo diretor do SISE defendeu ainda que Moçambique se encontra refém de redes de influência nacionais e internacionais que exploram as fragilidades do Estado.
“Hoje já não se trata apenas de grupos. São redes, ‘networks’, que se estendem dos Estados Unidos à Europa, passando pela Rússia e pela China”, afirmou.
Segundo Rosário, estas redes aproveitam-se das debilidades institucionais para impor interesses externos, mantendo o país numa situação de dependência e instabilidade estrutural.
Segurança nacional, reformas e resistência interna
Questionado sobre os problemas concretos de segurança nacional que tentou resolver durante o seu mandato, Rosário indicou que procurou implementar reformas profundas, incluindo a modernização da formação dos quadros e a profissionalização do setor.
“Eu tentei explicar, inclusive no meio académico, a necessidade de reformas sérias, mas encontrei resistência”, disse, sugerindo que interesses instalados travaram mudanças estruturais.
Alegações de envolvimento de administradores em crimes
Sobre alegações de envolvimento de administradores públicos em esquemas criminosos, Rosário foi direto:
“Há administradores públicos envolvidos em crimes problemáticos.”
A declaração reforça a ideia de que, no exercício das suas funções, o antigo responsável do SISE terá identificado práticas de corrupção envolvendo altos funcionários do Estado.
“Sou vítima de perseguição política”
António Carlos do Rosário concluiu a entrevista reafirmando a sua inocência e sustentando que é alvo de perseguição política por ter tocado em interesses sensíveis.
“Continuo a viver com a capacidade de aceitar as contrariedades. Isso não me impede de manter a visão que sempre tive”, afirmou.
As declarações de Rosário surgem num contexto de forte contestação política e eleitoral em Moçambique desde outubro de 2024, reacendendo o debate sobre a independência das instituições, a seletividade da justiça e a influência de redes de poder no funcionamento do Estado.


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