Xitsungu comeu Dezembro — e ficou sem 2025

Os assaltos e arrombamentos de estabelecimentos comerciais atribuídos a Xitsungu não tinham rosto definido. Eram, como diria Hélder Jauane, apenas o povo — um povo encurralado, sem escapatória, empurrado para um ponto em que, mais cedo ou mais tarde, tudo pode sair do controlo.

Tal como em tempos de guerra civil, muitos enriqueceram à custa do sangue e do sofrimento colectivo. Durante as manifestações, também houve aproveitamento económico. O resultado está à vista: empresas encerradas definitivamente e centenas de jovens lançados à humilhação do desemprego, sem perspectivas nem futuro imediato.

Produtos foram retirados de forma bruta de lojas e supermercados, sobretudo bens alimentares e electrodomésticos. Alguns saíam carregados de sacos e, ainda assim, diziam à imprensa: “Nada de especial.” Do outro lado, políticos tomavam chá em salas fechadas, tentando resolver uma crise nascida da falta de transparência e de liberdade nas eleições gerais.

Enquanto isso, comerciantes reforçavam grades, blindavam portas e protegiam o pouco que restava. Camiões de combustível deixaram de circular. A vida parecia leve, mas era pesada ao mesmo tempo — uma normalidade artificial, sustentada pelo medo e pela incerteza.

Xitsungu, esse símbolo anónimo do desespero, carregava uma simples embalagem de pipocas depois de ter arriscado a própria vida. Foi comer Dezembro. Parece que comeu todos os Dezembros da sua vida de uma só vez.

A tempestade passou. As vozes agora ecoam nos conselhos de Estado, já acomodadas em bons tachos. Os que governam estão relaxados. O país segue em frente, como se nada tivesse acontecido.

Mas em 2025, Xitsungu não vai comer Dezembro.

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