Barómetro das Mulheres 2024 alerta para “Ano da Ruptura” com aumento da violência extrema em Moçambique

 

Relatório do Observatório das Mulheres expõe retrocessos na igualdade, menor confiança no sistema de justiça e sinais preocupantes na inclusão financeira e participação política.

O recém-lançado “Barómetro das Mulheres 2024”, elaborado pelo Observatório das Mulheres, classifica o último ano como o “Ano da Ruptura”, apontando retrocessos significativos na igualdade de género e uma agudização da violência extrema contra mulheres e raparigas.

O relatório destaca um paradoxo: enquanto leis avançam e as instituições de justiça se tornam mais feminizadas, os níveis de violência grave atingiram patamares críticos.

Segundo o documento, há uma discrepância entre os registos oficiais e a realidade. Embora a Polícia da República de Moçambique (PRM) indique uma ligeira redução nas denúncias de violência doméstica, dados da Procuradoria-Geral da República e casos de maior visibilidade mostram aumento de crimes mais graves.

O Barómetro aponta que pelo menos 119 mulheres perderam a vida em 2024 em consequência de agressões severas — um sinal de que cresce a desconfiança no sistema de justiça de primeira linha, levando vítimas a reportarem apenas quando a violência chega a níveis extremos.

“O sentimento de medo e insegurança não só persistiu, como se aprofundou”, sublinha o relatório.

       Realidade social: resiliência e vulnerabilidade

O estudo mostra que as mulheres representam 51,6% da população, e 65,3% vivem em zonas rurais, onde o acesso a serviços continua limitado.
A esperança de vida feminina subiu ligeiramente para 59,5 anos, mas persistem desafios: 25,42% das inquiridas relataram experiências de violência obstétrica durante o parto ou pós-parto.

Na economia, houve retrocesso na inclusão financeira: a participação das mulheres no crédito a particulares caiu de 33% (2023) para 31% (2024).

Crimes contra a liberdade sexual continuam a crescer, especialmente entre raparigas, e Moçambique mantém a mais alta taxa de fertilidade adolescente da SADC.

     Participação política: avanço limitado e retrocessos visíveis

O relatório identifica queda na representação feminina no Poder Legislativo e estagnação no poder local.
Embora o número de vice-ministras tenha subido de 12,5% para 25%, o Observatório considera tratar-se de um avanço pontual, insuficiente para reverter a perda de paridade em órgãos de decisão.

    Organizações de mulheres seguem na linha da frente

Apesar do cenário desafiante, o Barómetro reconhece o papel crucial das organizações de mulheres, descritas como pilar central da promoção da equidade, sobretudo onde o Estado não consegue chegar.

         Apelo urgente à ação

O Observatório alerta que o progresso legislativo permanece “frágil e insuficiente” e defende um esforço coordenado para desmantelar normas sociais que continuam a normalizar e justificar a violência.

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